estou cego

Estou cego?
Apenas sinto o sol está atrás do muro.
Mas, não a vejo, quem está aí agora?
Apenas feche a porta ao sair,
mas saia rápido.
Prevejo mais uma maré alta,
e já não é tão fácil…
Restos de atenção é como viver em sonhos.
São apenas sonhos,
alguns nem querem existir.
Mais quanto tempo remando pra não cair?
Mais um tempo só?
Mais algum baseado?
Alguma palavra pra engolir?

Quero continuar cego.

Sim, cego!
Só não quero ficar surdo,
já não gosto do surdo do silêncio,
da falta de música.

Arthur Rodrigues

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  • Há 4 meses

cale sua maldita boca, eu mesmo.

"Elas olham, como não? São olhares fortes. Encaram a gente adentro como se tomassem conta. Tais palavras, o silêncio roubou um dia, afinal… sem palavras, pesam mais que cem. E quanta crueldade, essa ausência de notas! Como podem dizer tanto, sem falar nada? Fazer evaporar, lágrimas presas na garganta de uma liberdade que se encontra atrás de grades, oito horas por dia, cinco vezes na semana. Talvez o silêncio escute o tom da sua voz e mude de ideia, talvez." Arthur Rodrigues

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  • Há 5 meses

Qualia

Minha mente errante pelos ventos dança
Nossos pés fixos na terra do concretismo
falecido e sepultado
Falsa identidade vendida
ao cartório
Minha morte é
sem volta ou revolta
Me perdi na unidade estupida
do meu eu sem vitória
Permaneço só uma lembrança na memória
de velhos amigos sem volta
O que resta agora na desoladora objetividade
que reafirma seus maus presságios?
Meus eus que flertam com a morte
Meu eu que foge, corre, se move
pra continuar vivo…
mesmo sentindo aquele gostinho
de imprevisível!
Minha subjetividade é a toca do coelho
que me salva e consome.
O mar bravo pelo qual me vejo ilhado
na beatitude de minha ilha deserta.
O sequestrador
que não consigo mais abandonar
A venda
e os olhos
dos quais não quero me livrar
A luz alucinante do fim do túnel
que só brilha quando andamos no escuro.

Bruno Rodrigues.

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  • Há 6 meses

monotonia

pela loucura que anda ao lado
pela injúria, breve, 
porém derrotada.
enfim, escrevo.

escrevo pra que o dia passe rápido,
pra que não tenha que pensar errado,
mesmo sabendo do certo,
facilmente negado.

o certo, em inverso:
sorrindo à guerra,
maltratando a terra,
choram homens de alegria.

do teu lindo corpo que me aquece,
mas logo afasta dos meus versos
em neles me prendi, e aprendi:
amor é mais que acreditava ser.

Arthur Rodrigues

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  • Há 6 meses

Um e dois

Mais um passo, dois
Tropeços por distração
Meus pés,
Uma caminhada para o nada
Pelo caminho da existência
Mais dois passos:
Uma escada
Subo os degraus, um, dois
No fim da escada, a lassidão
- Ainda não achei o nada
Digo a plenos pulmões
Eles se enchem e soltam ar
-O mundo é distante e dentro de mim
Ainda caminho, sozinha: um e um
Paro para um café amargo
Mais um trago, um ou dois
Despeço-me dos velhos parceiros
-As pessoas são distantes e dentro de mim
Sigo tropeçando nos meus pés
Confundo-os, entre um e dois
Olho no fundo dos olhos de qualquer um pelo caminho
Vejo o fim e o começo
A existência e o nada: um e um

Ludmila Cunha

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  • Há 7 meses

Da vida/morte

de cada dia que foi,

guardei o que pude

degustei cada pedaço de chão onde morri

e de repente, as costuras que eu fiz pro mundo ficar no lugar

se romperam

minhas veias abriram

e o sangue fez um dilúvio de vida

agora, o chão tem gosto de manhã ressabiada

porque ela sabe que depois das 11,

ela vai morrer,

e ela sabe

que tudo que eu como e bebo é agora.

 devo seguir o sol? e se eu me queimar?

eu dou risada dos muros, cercas elétricas

grandes portões de castelos…

isso não me importa mais, o chão viu

os muros, as cercas viram:

eu morri em cada pedaço.

e assim, continuo vivo.

Marco Tulio Sousa Costa

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  • Há 7 meses

Sobre José e Maria

José ainda usava camisetas de banda quando conheceu Maria. Eles estavam na faculdade.

Foi com ela o primeiro porre. Foi com ela a primeira ressaca.

Os planos envolviam largar a faculdade, virar hippie, conhecer outro país e adotar um cachorro. Ter 3 filhos, plantar os próprios temperos, abrir um restaurante e olhar o céu todas as noites antes de dormir.

Maria apoiou todas essas ideias doidas. Maria era doida por ele.

Foram acampar, plantaram árvores, observaram o mar. Fizeram malabarismo no sinal e guardaram o dinheiro pra próxima viagem.

O tempo passou e José escolheu a Economia.

Deixou Maria em segundo plano.

Ela ganhou bolsa pra estudar fora, acompanhou um circo, se perdeu, se encontrou e descobriu que dormir é uma das melhores maneiras de encarar os dias.

José virou homem importante, para orgulho do seu pai. Casou com Marina e tinha investimentos na bolsa de valores.

Nunca mais planejou viajar.

Nem adotar um cachorro.

Nem plantar os próprios temperos,

nem sequer cozinhou.

Nem abriu um restaurante.

Nunca mais acampou,

ou pensou em acampar.

José era um homem de sucesso.

Totalmente maduro.

Mas que saudade José tinha de Maria.

Letícia Fernandes

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  • Há 7 meses

Moribundos da Megalópole

Compassados minutos irrevogáveis de tristeza pungente.
Perseguindo sonhos em pequenos espelhos itinerantes
de imagens obscenas
Cenas
de puro jubilo e depois
mal estar indecente.
Descompassados passos decididos rumo ao límpido
escurecer do abismo.
Mesclas inconstantes de eterno deleite e depois e sempre
a imortal dor.
Descompassada dança de corda bamba –
no circo da vida os animais foram remetidos:
ao adestradouro mais próximo.
Sob os holofotes tremendo todo sobre
a corda
Gostam de assistir ao cabo de guerra
entre o primitivo e o requintado
mais outra batalha vã em pleno
campo minado.
E quando a corda vacilar,
a loucura desgovernará!

Tem um tigre lá em baixo
Lá em baixo, mais ao fundo…
Com as unhas afiadas e o olhar irresoluto.
Sua faísca a incendiar lábaros e diáfanos
pilares
Do templo da verdade –
O cálido comodismo cuspindo indômitas
chispas abrasadoras
Nos olhos vendados de moralistas
disfarçados.
Todos os engravatados devem se enforcar
com seus próprios nós depois da reunião!
– feito por suas mulheres antes do trabalho –
Aos olhos públicos no congresso Brasileiro
e deixar que os afogados tomem
o leme e conduzam à novas águas…
A roleta vai novamente girar, e virar o mundo
e as carteiras cheias de alguém para baixo.
Novas cartas serão dadas
e uma das mãos estará atravancada
Novas pessoas serão jogadas ao mar –
novos tubarões vão se alimentar
De carcaças que um dia jorraram um
pouquinho de vida e uma esperança rala;
agora o sangue espeço turva as águas,
lá, onde batizam crianças amedrontadas!
Está é a última chamada para todos os
governandatários que guardaram suas
últimas balas –
Dispararem contra as próprias cabeças
na largada!
Beberem da cuia envenenada
do Pajé resignado…
Na sala mais larga do
Planalto Central.

O único Deus dos moribundos
é o Cinzento –
onipresente concreto majestoso,
com mil almas abarrotadas dentro;
Onisciente Cinzento cujos olhos
translúcidos enxergam tudo nas
sólidas alturas
Controlando tudo,
separando ruas… mixórdias
de escravos resolutos
No labirinto da pós-modernidade
peões caminham
para adiar o Xeque-mate inevitável
de Reis aleijados.
Os únicos cidadãos são os Cinzas –
fazendo o que lhes é mandado
Os moribundos
trocando as fronhas do seu próprio
patíbulo. Construíram sua própria cela
à sua semelhança!
Um grande câncer nas
carcundas do mundo
Que nem um dilúvio irá
derribar
Muros por toda cidade,
muros mentais por toda
parte. Siga as placas, e
os sinais, eles vão te
levar de volta ao seu
quarto seguro, e
vazio de dúvidas
do décimo-quarto
andar.

Bruno Rodrigues

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  • Há 7 meses

Aonde vai você?

Aonde vai você
com toda essa
loucura?
Vou sentir o frenesi
fervilhante
Se alastrar pelo
meu ser
Vou sentir o senil frio –
que me aguarda
em mistérios longínquos
rasgar minha
pele.
Vou sentir
unhas desconhecidas-de-quimera
arranharem minhas
costas
Sob a luz da
aurora da lua!
Quero me encher de
vida
Sorrisos e lembranças –
Acordar e deixar
o sol daquele dia –
O sol do Dia
Brilhar mais
uma vez
E eu dançarei
discreto
Consternado com
teu belo sorriso
Que você me recitou
sob a lua
e os colossos –
Vou morrer de
tanta vida efervescente
em mim!
Vou viver depois
de tanto sentir
a morte
dentro de mim…
Para talvez
um dia
Sentado numa
terna varanda
Eu lute
com a folha
de papel
Cheia de velhas
lembranças!

Bruno Rodrigues

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  • Há 7 meses

É proibido

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos

Não tentar compreender o que viveram juntos
Chamá-los somente quando necessita deles.
É proibido não ser você mesmo diante das pessoas,
Fingir que elas não te importam,

Ser gentil só para que se lembrem de você,
Esquecer aqueles que gostam de você.
É proibido não fazer as coisas por si mesmo,
Não crer em Deus e fazer seu destino,

Ter medo da vida e de seus compromissos,
Não viver cada dia como se fosse um último suspiro.
É proibido sentir saudades de alguém sem se alegrar,

Esquecer seus olhos, seu sorriso, só porque seus caminhos se
desencontraram,
Esquecer seu passado e pagá-lo com seu presente.
É proibido não tentar compreender as pessoas,
Pensar que as vidas deles valem mais que a sua,

Não saber que cada um tem seu caminho e sua sorte.
É proibido não criar sua história,
Deixar de dar graças a Deus por sua vida,

Não ter um momento para quem necessita de você,
Não compreender que o que a vida te dá, também te tira.
É proibido não buscar a felicidade,

Não viver sua vida com uma atitude positiva,
Não pensar que podemos ser melhores,
Não sentir que sem você este mundo não seria igual.

Pablo Neruda
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  • Há 7 meses
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